← Artigos · Gramática · 24 de Março de 2026 ·
O Infinitivo Pessoal em Português Europeu: Guia Completo com Exemplos
O infinitivo pessoal em português europeu — também chamado infinitivo conjugado ou infinitivo flexionado — é uma das estruturas gramaticais mais fascinantes e únicas de toda a linguística europeia. Praticamente nenhuma outra língua da Europa ocidental o possui: o castelhano não o tem, o italiano não o tem, o francês não o tem. Mesmo o português do Brasil recorre a ele muito menos frequentemente do que o português europeu. Dominar o infinitivo pessoal é, por isso, uma das marcas mais distintivas de quem fala verdadeiramente o português de Portugal — e também um dos maiores desafios para quem aprende a gramática do português europeu.
O que é o infinitivo pessoal em português europeu?
Em gramática, o infinitivo é a forma verbal que não está conjugada num tempo — em português, é a forma terminada em -ar, -er ou -ir: falar, comer, partir. Na maioria das línguas, o infinitivo é invariável: não muda consoante o sujeito da frase.
O português, porém, tem um segundo tipo de infinitivo: o infinitivo pessoal. Esta forma verbal comporta-se como um infinitivo (não indica tempo), mas é conjugada de acordo com a pessoa gramatical. É, por outras palavras, um infinitivo que «sabe» quem está a fazer a acção. Esta característica permite ao português construir frases subordinadas de uma clareza e elegância raras em qualquer outra língua.
A existência do infinitivo pessoal no português europeu remonta ao latim vulgar e é partilhada apenas com o galego (a língua da região noroeste da Espanha que partilha raízes históricas com o português). Em todas as outras línguas românicas, esta flexão desapareceu durante a evolução histórica.
Como se conjuga o infinitivo pessoal
A conjugação do infinitivo pessoal segue um padrão regular para a grande maioria dos verbos. Parte da forma do infinitivo e acrescenta as terminações pessoais. O ponto de partida é sempre o infinitivo impessoal (a forma básica do verbo):
| Pessoa | Terminação | falar | comer | partir |
|---|---|---|---|---|
| eu | (sem terminação) | falar | comer | partir |
| tu | -es | falares | comeres | partires |
| ele/ela | (sem terminação) | falar | comer | partir |
| nós | -mos | falarmos | comermos | partirmos |
| vocês/eles/elas | -em | falarem | comerem | partirem |
Nota importante: as formas da 1.ª pessoa (eu) e da 3.ª pessoa do singular (ele/ela) são idênticas ao infinitivo impessoal. A diferença está nas restantes pessoas. Repara também que em português europeu utilizamos «vocês» para a segunda pessoa do plural — não «vós», que é arcaico e raramente usado fora de contextos literários ou religiosos.
Verbos irregulares
Os verbos irregulares mantêm a sua irregularidade no radical, mas as terminações do infinitivo pessoal são as mesmas. Aqui estão alguns dos mais comuns:
| Pessoa | ser | ter | fazer | vir | pôr |
|---|---|---|---|---|---|
| eu | ser | ter | fazer | vir | pôr |
| tu | seres | teres | fazeres | vires | pores |
| ele/ela | ser | ter | fazer | vir | pôr |
| nós | sermos | termos | fazermos | virmos | pormos |
| vocês/eles | serem | terem | fazerem | virem | porem |
Quando usar o infinitivo pessoal em português europeu
Esta é a parte que mais confunde os estudantes: quando é que se usa o infinitivo pessoal em vez do infinitivo impessoal? A resposta geral é: usa-se o infinitivo pessoal sempre que o sujeito da oração infinitiva é diferente do sujeito da oração principal, ou quando é importante especificar quem realiza a acção. Há, no entanto, contextos específicos onde o seu uso é especialmente frequente.
1. Depois de preposições (para, sem, antes de, depois de, ao, por, a)
Este é o uso mais comum e mais importante do infinitivo pessoal. Quando uma oração infinitiva vem precedida de uma preposição, o infinitivo pessoal é geralmente preferido (e frequentemente obrigatório para evitar ambiguidade):
- «Saíram sem nós sabermos.» (sem + infinitivo pessoal na 1.ª pessoa plural)
- «Ficámos à espera de eles chegarem.» (de + infinitivo pessoal na 3.ª pessoa plural)
- «Para tu perceberes, vou explicar outra vez.» (para + infinitivo pessoal na 2.ª pessoa)
- «Antes de partirmos, quero agradecer a todos.» (antes de + inf. pessoal — nós)
- «Depois de chegarem, ligaram logo.» (depois de + inf. pessoal — eles)
- «Ao entrares, fecha a porta.» (ao + inf. pessoal — tu)
2. Em orações subordinadas com sujeito diferente do da oração principal
Sempre que o sujeito da oração subordinada difere do da principal, o infinitivo pessoal permite clareza absoluta:
- «É importante vocês estudarem todos os dias.» (sujeito: vocês)
- «Quero que tu venhas, mas não é preciso virem todos.» (sujeito: todos)
- «Peço-vos serem pontuais.» (sujeito implícito: vocês)
- «Achei melhor eles ficarem em casa.» (sujeito: eles)
3. Depois de verbos impessoais e expressões impessoais
Depois de expressões como é preciso, é necessário, é bom, é importante, o infinitivo pessoal especifica quem deve fazer a acção:
- «É preciso vocês trazerem os documentos.»
- «É necessário nós chegarmos cedo.»
- «É bom fazeres exercício regularmente.»
- «É impossível eles saberem isso já.»
- «Convém partirmos antes das oito.»
4. Depois de verbos de percepção e causatividade
Depois de verbos como ver, ouvir, deixar, mandar, sentir, o infinitivo pessoal pode ser usado para precisar o sujeito da acção:
- «Ouvi-os cantarem lá fora.»
- «Vi-os saírem às três da tarde.»
- «Deixa-os brincarem — são crianças.»
- «Mandei-os ficarem quietos.»
30 exemplos de infinitivo pessoal em português europeu
Nada substitui a prática com exemplos concretos. Aqui ficam mais de trinta frases que ilustram os diferentes usos do infinitivo pessoal em contextos quotidianos do português de Portugal:
- «Para chegares a tempo, tens de sair agora.»
- «Antes de sairmos, apagámos todas as luzes.»
- «Depois de comerem, ficaram a conversar na sala.»
- «É melhor ires ao médico hoje mesmo.»
- «Ficámos surpreendidos com eles saberem a verdade.»
- «Sem nós darmos conta, já era meia-noite.»
- «Ao abrirem a porta, viram que estava tudo escuro.»
- «É fundamental vocês lerem as instruções antes de começar.»
- «Apesar de serem primos, não se conhecem.»
- «Há muitas razões para não desistirmos.»
- «O problema é eles não perceberem o que está em causa.»
- «Precisamos de vós serdes honestos connosco. (raro, literário)»
- «Para nós conseguirmos o empréstimo, precisamos de garantias.»
- «Antes de tu tomares uma decisão, pensa bem.»
- «Conta com eles chegarem atrasados.»
- «Vi-os entrarem no prédio às nove.»
- «Sem os pais saberem, foram ao concerto.»
- «É pena ele não poderes estar aqui. (agramatical — correção: «É pena ele não poder»)»
- «É provável eles não virem amanhã.»
- «Tratou de tudo sem nós precisarmos de fazer nada.»
- «Apesar de trabalharmos muito, ainda não chegámos ao objectivo.»
- «Decidiram esperar por eles chegarem.»
- «Espero poder estar lá, mas não sei se conseguirem arranjar transporte.»
- «Para serem aceites no programa, precisam de entregar candidatura.»
- «Ficaram contentes com nós irmos à festa.»
- «Ao sabermos a notícia, ficámos em choque.»
- «É necessário trazermos os documentos originais.»
- «Gostava que fossem, mas não é obrigatório irem.»
- «Esperavam por nós decidirmos.»
- «Por não terem aparecido, perderam o lugar.»
- «Ouvi-a dizer que ia embora. / Ouvi-a dizê-lo claramente.»
- «Por seres meu amigo, conto-te isto.»
- «Deixem-nos falar — têm o direito de se exprimir.»
Erros comuns de quem aprende o infinitivo pessoal em gramática do português europeu
Mesmo falantes avançados de português cometem erros com o infinitivo pessoal. Eis os mais frequentes:
Erro 1: Usar o infinitivo impessoal quando o pessoal é necessário
Este é o erro mais comum. Acontece quando o aprendente não percebe que o sujeito da oração infinitiva é diferente do da oração principal:
- Errado: «Para saber a resposta, eles têm de estudar.»
- Correcto: «Para saberem a resposta, eles têm de estudar.»
- Errado: «Saíram sem nós saber.»
- Correcto: «Saíram sem nós sabermos.»
Erro 2: Confundir infinitivo pessoal com o futuro do conjuntivo
As formas do infinitivo pessoal são idênticas às do futuro do conjuntivo para a maioria dos verbos regulares! Por exemplo, «falares» tanto pode ser infinitivo pessoal como futuro do conjuntivo. A distinção é feita pelo contexto sintáctico:
- Futuro do conjuntivo: «Se falares com ele, diz-lhe olá.» (condicional)
- Infinitivo pessoal: «Peço-te falares com ele.» (pedido)
Erro 3: Usar o infinitivo pessoal onde não é necessário
Por hipercorrecção, alguns aprendentes usam o infinitivo pessoal quando não é preciso — por exemplo, quando o sujeito da infinitiva é o mesmo da oração principal:
- Desnecessário: «Quero eu comer mais tarde.» (o sujeito é o mesmo)
- Natural: «Quero comer mais tarde.»
Erro 4: Esquecer a concordância nos verbos irregulares
- Errado: «Espero que virem todos.» (futuro do conjuntivo confundido com infinitivo)
- Correcto: «É provável virem todos.» (infinitivo pessoal após expressão impessoal)
O infinitivo pessoal no português europeu vs. outras variedades
É usado no Brasil?
O infinitivo pessoal existe na gramática do português brasileiro, mas o seu uso é muito mais restrito do que em Portugal. Os falantes nativos do Brasil tendem a evitá-lo em registos informais e a preferir construções com o conjuntivo ou com «que» subordinativo. Em Portugal, porém, o infinitivo pessoal é absolutamente corrente mesmo na fala espontânea e informal. Um português dirá naturalmente «Para chegares a tempo...» onde um brasileiro poderia dizer «Para você chegar a tempo...».
Esta diferença de uso é uma das razões pelas quais o português europeu soa «mais formal» aos ouvidos de alguns brasileiros — não é formalidade, é simplesmente uma estrutura gramatical que em Portugal faz parte da fala quotidiana.
Existe em espanhol, francês ou italiano?
Não. Nenhuma dessas línguas tem um infinitivo conjugado. Em espanhol, por exemplo, uma frase como «Para vocês poderem fazer isso...» seria construída completamente de outra forma: «Para que vosotros podáis hacer eso...» (com conjuntivo). Em português europeu, o infinitivo pessoal permite uma construção mais directa e económica.
Esta unicidade é exactamente a razão pela qual linguistas de todo o mundo estudam o português com particular interesse. O infinitivo pessoal é frequentemente citado como exemplo de uma inovação morfossintáctica que o português conservou (ou desenvolveu) de forma única entre as línguas românicas modernas.
FAQ: Perguntas frequentes sobre o infinitivo pessoal
O infinitivo pessoal é obrigatório?
Em muitos contextos, sim — especialmente quando a sua ausência criaria ambiguidade. Considera: «Saíram sem saber.» — Quem não sabia? Com o infinitivo pessoal, a frase torna-se clara: «Saíram sem nós sabermos» (nós não sabíamos) ou «Saíram sem saberem» (eles é que não sabiam). A regra prática é: se há dois sujeitos diferentes na frase e a acção infinitiva tem o sujeito explícito ou diferente do da oração principal, usa o infinitivo pessoal.
Como é que sei quando usar o infinitivo pessoal?
O teste mais simples: pergunta «Quem faz a acção do infinitivo?» Se a resposta não é óbvia pela forma da frase, ou se é diferente do sujeito da oração principal, usa o infinitivo pessoal. Outra pista: a presença de pronomes pessoais antes do infinitivo (eles chegarem, nós sabermos) é quase sempre sinal de infinitivo pessoal.
O infinitivo pessoal é usado na fala quotidiana em Portugal?
Sim, completamente. Ao contrário do que alguns manuais de gramática podem sugerir, o infinitivo pessoal não é uma forma erudita ou literária em Portugal. É usada normalmente na conversa do dia a dia, em notícias, em programas de televisão, em reuniões de trabalho. É, de facto, uma das marcas mais naturais do falar português europeu.
Há diferença entre «para eles fazerem» e «para que eles façam»?
Ambas as construções são correctas em português europeu. A versão com infinitivo pessoal («para eles fazerem») é mais comum na fala e em registos informais; a versão com conjuntivo («para que eles façam») é mais formal e literária. Em muitos contextos são completamente intercambiáveis.
O galego também tem o infinitivo pessoal?
Sim. O galego — a língua da Galiza, região noroeste de Espanha — partilha com o português esta estrutura, o que reflecte a origem comum das duas línguas (o galego-português medieval). É mais um sinal de que o infinitivo pessoal é uma característica genuinamente antiga e autóctone do ramo linguístico galego-português.
Como praticar o infinitivo pessoal
A melhor forma de interiorizar o infinitivo pessoal é, sem dúvida, a exposição ao português europeu falado. Ao ouvires nativos portugueses em contextos reais — numa reportagem da RTP, num podcast, num vídeo do YouTube — vais começar a reconhecer o padrão naturalmente, sem precisar de analisar conscientemente cada frase.
No PortuguesPortugal.pt tens acesso a centenas de vídeos produzidos em Portugal, cobrindo temas de actualidade, cultura, desporto, gastronomia e muito mais. Ouvir o infinitivo pessoal em contexto real é a forma mais eficaz de o fixar. Presta atenção especial a frases com para, sem, antes de, depois de e ao — é nesses contextos que o infinitivo pessoal aparece com mais frequência.
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