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São João do Porto: A Maior Festa Popular de Portugal

Há festas que se vivem. Há outras que se sentem na pele, no ruído, no cheiro a sardinha assada e no toque inesperado de um alho-porro na cabeça. O São João do Porto é, sem dúvida, uma destas últimas. Na noite de 23 para 24 de Junho, a cidade do Porto transforma-se numa das maiores festas populares da Europa, onde centenas de milhares de pessoas ocupam as ruas, os miradouros e as pontes para celebrar um dos santos mais queridos do calendário português.

Para quem aprende português europeu ou simplesmente quer perceber a cultura de Portugal, o São João do Porto é uma referência obrigatória. Não se trata apenas de uma festa local: é um fenómeno cultural que revela muito sobre o carácter dos portuenses e sobre as tradições que, geração após geração, continuam a resistir ao tempo.

A Origem do São João

A Festa de São João Baptista celebra-se a 24 de Junho, data em que a tradição cristã assinala o nascimento de João Baptista, primo de Jesus Cristo e figura central do Novo Testamento. Porém, as raízes desta celebração são muito anteriores ao Cristianismo: coincidem com o solstício de Verão, um momento que os povos antigos da Europa marcavam com fogueiras, rituais agrários e festividades ligadas à fertilidade e ao calor do Sol.

Portugal herdou essa dupla tradição. Com a chegada do Cristianismo, o solstício foi reinterpretado à luz dos santos populares do mês de Junho. Assim nasceram os Santos Populares: São António, festejado em Lisboa a 12 e 13 de Junho; São João, o mais famoso de todos, celebrado no Porto a 23 e 24 de Junho; e São Pedro, festejado em Braga e noutras cidades a 28 e 29 de Junho.

No Porto, o São João ganhou uma dimensão única. A cidade adoptou-o como festa central da sua identidade, e hoje é impossível falar do Porto sem falar do São João.

A Noite de 23 de Junho

A festa começa ao anoitecer do dia 23. As ruas do Porto, sobretudo as do centro histórico, enchem-se de gente de todas as idades. Os bairros mais animados são tradicionalmente o Bonfim, a Sé, a Vitória e a zona ribeirinha. A música ressoa em palcos improvisados e em grupos que tocam nas esquinas. As varandas enchem-se de vizinhos que observam o espectáculo cá de baixo. As tendas de petiscos multiplicam-se por toda a cidade.

À meia-noite, o espectáculo de fogo-de-artifício sobre o Rio Douro, lançado a partir de Gaia, ilumina o céu durante longos minutos. É o momento mais aguardado da noite: as pontes e os miradouros ficam completamente lotados por quem quer ver os fogos. A Ponte D. Luís, com o seu arco imponente sobre o Douro, é o cenário mais emblemático desta celebração.

Os Alhos-Porros e os Martelinhos

Uma das tradições mais curiosas do São João do Porto é a de bater levemente na cabeça das pessoas com um alho-porro. Sim, com um vegetal. Nesta noite, os portuenses andam pelas ruas com alhos-porros na mão e batem nos transeuntes de forma completamente aleatória e bem-humorada. Ninguém se ofende: receber uma pancadinha de alho-porro é considerado um gesto de boa sorte.

A origem desta tradição é antiquíssima. As ervas aromáticas, como o alecrim e o manjericão, eram usadas nos rituais do solstício para afugentar maus espíritos e atrair prosperidade. Com o tempo, o alho-porro substituiu as outras ervas no Porto, provavelmente pela abundância com que existia na região.

Nas últimas décadas, os chamados martelinhos ganharam popularidade, sobretudo entre as crianças: são martelos de plástico de cores vivas que fazem um som ao bater e que cumprem a mesma função lúdica do alho-porro. Nas ruas do Porto na noite de São João, é praticamente impossível escapar a uns quantos martelinhos na cabeça.

Os Balões de Papel

Outro elemento icónico desta festa são os balões de papel, também chamados balões de São João. São lanternas de papel colorido, abertas por baixo, onde se coloca uma pequena chama. O calor produzido faz o balão subir suavemente até ao céu, onde fica à deriva, iluminando a noite.

Na noite de 23 de Junho, centenas de balões sobem do Porto e de Gaia em simultâneo, criando um espectáculo de rara beleza. Ver os balões a flutuar sobre o Douro, com os fogos de artifício ao fundo, é uma das imagens mais marcantes que o Porto oferece.

A tradição é antiga, mas não isenta de controvérsia: os balões acesos representam um risco de incêndio quando caem, e a sua utilização está regulamentada e proibida em certas zonas. Ainda assim, a tradição mantém-se viva e é parte incontornável do imaginário do São João.

As Sardinhas Assadas

Nenhuma festa popular portuguesa estaria completa sem sardinhas assadas. No São João do Porto, o cheiro a sardinha a grelhar na brasa é omnipresente. Tendas, restaurantes com esplanadas improvisadas e vizinhos com grelhadores na rua competem em número. Come-se a sardinha em cima de um pedaço de pão, com sal e às vezes com pimento assado: simples, saboroso e profundamente português.

A sardinha, peixe humilde e nutritivo, tem um papel central nos Santos Populares em todo o país. Mas no Porto, come-se com uma intensidade especial, como se cada garfada fosse um brinde à cidade e ao santo que a protege.

Os Manjericos

Outra tradição do São João são os manjericos: vasos com a planta manjerico decorados com papel crepe colorido e um pequeno cravo encarnado enfiado no topo. Dentro da planta, ou preso com um palito, há geralmente um papel com um verso ou quadra popular, muitas vezes de cariz amoroso.

Antigamente, oferecer um manjerico a alguém era uma declaração de amor velada. Hoje, os manjericos vendem-se por toda a cidade nas semanas que precedem a festa e são colocados nas janelas e varandas como símbolo de boas-vindas ao São João. O cheiro do manjerico mistura-se com o da sardinha e da pólvora numa combinação olfactiva que qualquer portuense reconhece ao instante.

O Vocabulário do São João

Para quem aprende português europeu, o São João oferece um vocabulário próprio que vale a pena conhecer:

Notar que em português europeu se diz fogo-de-artifício (plural: fogos de artifício), e não "fogo de artifício" sem o hífen, que é mais comum no Brasil. Também o verbo festejar é muito usado neste contexto: "festejar o São João", "festejar com os amigos".

O São João e a Identidade Portuense

O São João é muito mais do que uma festa. É o momento em que os portuenses afirmam a sua identidade com um orgulho quase tribal. A cidade, que ao longo do ano mantém uma certa contenção nortenha, explode em alegria colectiva nesta noite. Estranhos tornam-se amigos ao primeiro alho-porro. Vizinhos que mal se conhecem partilham sardinhas na rua. Famílias reúnem-se, emigrantes regressam.

Há quem diga que se quer conhecer verdadeiramente o Porto, deve fazê-lo na noite de São João. Não nos museus nem nos restaurantes turísticos, mas nas ruas cheias de gente, com um alho-porro na mão, à espera dos fogos sobre o Douro. É nessa noite que a cidade mostra o que é, sem filtros e sem cerimónias.

O São João Noutras Cidades

Embora o Porto seja a cidade onde o São João tem maior expressão, a festa celebra-se em muitos outros locais de Portugal. Em Braga, as festas de São João também têm grande dimensão, com um cortejo histórico e muita animação nas ruas. Em Lisboa, o mês de Junho é dominado pelo São António, mas o São João não passa despercebido. Em aldeias e pequenas cidades de todo o país, os arraiais de São João mantêm uma tradição rural e comunitária que remonta a séculos.

Cada região tem os seus rituais particulares. No Minho, é tradição saltar por cima de fogueiras na noite de São João, acreditando que quem salta sete vezes afasta o azar e atrai a sorte. No Alentejo, a festa tem um carácter mais sereno, com música tradicional e convívio entre vizinhos. Em todo o lado, porém, a sardinha e o vinho são presenças garantidas.

Como Viver o São João do Porto

Se tiver a oportunidade de estar no Porto na noite de 23 de Junho, há alguns conselhos práticos que lhe serão úteis. Em primeiro lugar, vista roupa confortável e que não se importe de ver manchada de sardinha ou de pólvora. Em segundo lugar, compre um alho-porro logo à chegada: sem ele, fica em desvantagem na batalha das ruas. Em terceiro lugar, vá ao miradouro da Serra do Pilar, em Gaia, para ver os fogos: a vista sobre o Porto e o Douro, com os balões a subir e os foguetes a explodir, é inesquecível.

Chegue cedo para garantir lugar nos sítios mais concorridos. O metro do Porto funciona durante toda a noite nesta data, o que facilita a deslocação. E prepare-se para não dormir: o São João do Porto não termina com os fogos de meia-noite. A festa continua pela madrugada até ao amanhecer.

O São João é, no fundo, um convite a participar da vida portuguesa da forma mais directa e genuína possível. Para quem estuda a língua ou a cultura do país, é uma experiência que nenhum livro consegue replicar. E quando alguém lhe bater com um alho-porro na cabeça, sorria: é um sinal de boa sorte.

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