A Ditadura Digital na Evolução da Língua Portuguesa

A língua é um organismo vivo. Evolui com as comunidades que a falam, absorvendo novas palavras, adaptando pronúncias, fundindo influências de forma gradual e orgânica ao longo de gerações. Mas o que acontece quando esse processo natural é interceptado e reescrito por algoritmos concebidos a milhares de quilómetros de distância, por empresas cujo único critério é o peso dos números?

É precisamente isso que está a acontecer ao português de Portugal. E os principais agentes desta transformação não são linguistas nem académicos: são a Google, a Wikipedia, os sistemas de autocomplete, os modelos de linguagem artificial e toda a arquitectura invisível que medeia a nossa relação quotidiana com a língua escrita.

O problema dos números: 215 milhões contra 10

O português é a quinta língua mais falada no mundo. Mas dos seus mais de 260 milhões de falantes nativos, apenas cerca de 10 milhões vivem em Portugal. O Brasil tem mais de 215 milhões. Para um algoritmo de optimização que maximiza relevância por volume de utilizadores, a escolha é automática: a norma brasileira prevalece.

Quando um utilizador em Lisboa escreve «telemóvel» numa pesquisa, o autocomplete sugere «celular». Quando procura «autocarro», recebe resultados dominados por «ônibus». Quando uma criança portuguesa usa o corrector ortográfico do Google Docs pela primeira vez, aprende que «óptimo» é um erro, porque a ferramenta foi treinada com mais dados em pt-BR do que em pt-PT. O algoritmo não é neutro. É, estruturalmente, brasileiro.

A Wikipedia e a apagamento silencioso

A Wikipedia em língua portuguesa é talvez o exemplo mais visível desta dinâmica. Existe uma única Wikipedia em «português», não duas (uma para cada norma), e as suas convenções editoriais favorecem tendencialmente a ortografia e o vocabulário brasileiros, reflexo directo do facto de a esmagadora maioria dos editores activos ser originária do Brasil.

Um artigo escrito em português europeu é, com frequência, «corrigido» para a norma brasileira por editores bem-intencionados que apenas seguem as regras da comunidade. O resultado é que a maior enciclopédia livre do mundo, em língua portuguesa, funciona efectivamente como uma enciclopédia brasileira. Um estudante português que consulte a Wikipedia para verificar como se escreve uma palavra aprende, sistematicamente, a norma do outro lado do Atlântico.

Esta não é uma conspiração. É o resultado previsível de uma arquitectura que não foi concebida com a diversidade linguística do português em mente, e que nunca foi corrigida porque os números tornaram a correcção inconveniente.

O Google Tradutor e a normalização invisível

O Google Tradutor oferece, desde 2022, a distinção entre «Português (Brasil)» e «Português (Portugal)». Um passo na direcção certa, mas insuficiente. Os modelos de linguagem subjacentes foram treinados com corpora vastamente dominados pelo português brasileiro, e a opção «Portugal» funciona frequentemente como uma camada cosmética sobre um motor que pensa em pt-BR.

Mais relevante ainda é o autocomplete do motor de busca. Quando milhões de utilizadores escrevem em português todos os dias e o sistema aprende com esses padrões, a norma maioritária reforça-se continuamente. A cada pesquisa sugerida, a cada correcção automática aceite, a cada e-mail «melhorado» pela inteligência artificial, o português europeu perde terreno. Não por decreto, mas por erosão algorítmica.

Evolução natural versus transformação artificial

A história da língua portuguesa conhece muitos momentos de contacto, fusão e adaptação. O português que se fala hoje em Lisboa não é o mesmo que se falava no século XV, e isso é saudável. As línguas evoluem ao ritmo das pessoas que as vivem: devagar, de forma orgânica, com a memória do passado e a pressão do presente.

O que está a acontecer agora é fundamentalmente diferente. Não é uma fusão. É uma substituição unilateral acelerada, imposta não pela vontade dos falantes mas pela arquitectura de plataformas que nunca foram concebidas para preservar a diversidade do português. A «norma» que emerge deste processo não é o resultado de um acordo entre comunidades: é o output de um modelo estatístico que reflecte os preconceitos dos dados com que foi alimentado.

Uma língua que muda porque os seus falantes assim a moldam é um sinal de vitalidade. Uma língua que muda porque um algoritmo decidiu que a outra variante tem mais utilizadores é um sinal de perigo.

As crianças: as primeiras vítimas

O impacto mais preocupante desta dinâmica recai sobre as crianças. Uma criança portuguesa que hoje aprende a escrever faz-o num ambiente digital onde os principais instrumentos de referência (correctores ortográficos, assistentes de escrita, motores de busca, plataformas de vídeo) estão calibrados para a norma brasileira ou para um português indiferenciado que tende para ela.

Quando o corrector do tablet sugere «você» em vez de «tu», quando o YouTube recomenda sistematicamente criadores brasileiros a um utilizador em Portugal, quando a inteligência artificial que ajuda com os trabalhos de casa escreve «a gente foi» em vez de «nós fomos»: cada uma destas micro-interacções deposita uma camada de desorientação linguística.

Não se trata de achar que o português do Brasil é inferior. Não é. Trata-se de reconhecer que uma criança portuguesa tem o direito de crescer em contacto com a sua própria norma linguística, de a ouvir, de a ver escrita, de a reconhecer como válida. Quando o ambiente digital lhe comunica o contrário, isso não é evolução: é uma amputação silenciosa da identidade.

Os estudos de aquisição da linguagem são claros: a exposição ao input linguístico nos primeiros anos de vida é determinante para a formação da competência linguística. Se esse input é maioritariamente numa variante diferente da que a criança ouve em casa e na escola, cria-se uma dissonância que pode gerar insegurança linguística, ou seja, a sensação, que muitos portugueses adultos já conhecem, de que a sua própria forma de falar «não está certa».

O que pode ser feito

A solução não passa pelo isolamento nem pela recusa do mundo digital. Passa por exigir, usar e construir alternativas que respeitem a diversidade do português.

A língua como acto de resistência

Falar português de Portugal (com os seus «tu», os seus «telemóveis», os seus «pequeníssimos» e os seus «óptimos») não é um acto de provincianismo nem de hostilidade face ao Brasil. É um acto de afirmação identitária numa era em que as plataformas globais tendem a homogeneizar tudo o que não tem peso de mercado suficiente para resistir.

A língua não morre de repente. Dissolve-se, camada por camada, cada vez que uma criança aceita a sugestão errada do corrector, cada vez que um adulto reescreve o seu texto para soar «mais correcto» segundo o padrão que a máquina lhe impôs.

Preservar o português de Portugal não é uma questão de purismo saudosista. É uma questão de soberania linguística, e de garantir que as gerações futuras herdam uma língua que ainda reconhecem como sua.

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